O Fim do “Juridiquês”: Por que a Linguagem Simples virou Lei no Serviço Público?

Você já recebeu uma notificação do governo, leu um edital ou acessou um portal de serviços e sentiu que o texto estava escrito em outro idioma?

Expressões como “doravante”, “impugnado” e “facultada” sempre foram comuns na administração pública, mas criam uma barreira invisível entre o Estado e o cidadão.

No entanto, esse cenário está mudando. A comunicação complexa e burocrática está dando lugar a um movimento transformador: a Linguagem Simples.

Mais do que uma técnica de redação, trata-se de garantir um direito democrático básico: o direito de entender.

resumo da linguagem simples

O que é a Linguagem Simples no Setor Público?

A premissa da Linguagem Simples é muito clara: comunicação não é o que você escreve, mas sim o que o outro entende. O foco deixa de ser o emissor (o órgão público ou o servidor) e passa a ser o receptor (o cidadão).

Quando um texto público é complexo demais, ele gera desinformação, afasta a população dos seus direitos e aumenta os custos do Estado.

Afinal, um cidadão que não entende uma carta de cobrança ou os requisitos de um benefício precisará ligar, mandar e-mails ou ir presencialmente a uma repartição pública para tirar dúvidas.

A Política Nacional de Linguagem Simples (Lei nº 15.263/2025)

A simplificação da linguagem deixou de ser apenas uma recomendação de boas práticas e tornou-se uma obrigação legal no Brasil. Em novembro de 2025, foi sancionada a Lei nº 15.263/2025, que institui oficialmente a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública.

A nova legislação tem objetivos claros:

  • Reduzir a dependência de intermediários: O cidadão não deve precisar de um advogado ou despachante apenas para entender um formulário ou um serviço básico.
  • Diminuir tempo e custos no atendimento: Textos claros evitam o retrabalho dos servidores.
  • Garantir acessibilidade: A comunicação deve ser inclusiva, independentemente do nível de escolaridade do leitor.

Além do Executivo, o Judiciário também já vinha se movimentando. Em dezembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançaram o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, com o objetivo de combater o excesso de “juridiquês” nas decisões dos tribunais.

5 Diretrizes Práticas para Escrever em Linguagem Simples

Se você é servidor público, atua na criação de políticas públicas ou trabalha com comunicação governamental, a Lei 15.263/2025 traz técnicas específicas que devem nortear a produção textual. Veja como aplicar no dia a dia:

1. Vá direto ao ponto (e destaque o principal)

Comece pela informação mais importante. O que o cidadão precisa saber ou fazer? Coloque essa informação no início do texto, e não escondida no último parágrafo. Se houver detalhes adicionais, deixe-os como opcionais ou complementares.

2. Use a ordem direta e a voz ativa

A estrutura mais fácil de ser processada pelo cérebro é: Sujeito + Verbo + Complemento.

  • Evite: “Foi estabelecido pelo comitê que o prazo será prorrogado.” (Voz passiva)
  • Prefira: “O comitê prorrogou o prazo.” (Voz ativa)

3. Elimine jargões e palavras difíceis

Troque termos técnicos e rebuscados por palavras de uso cotidiano. Não escreva “pleito” se você pode escrever “pedido”. Evite estrangeirismos desnecessários e siglas sem explicação prévia.

4. Uma ideia por parágrafo

Evite blocos gigantes de texto. Parágrafos curtos, contendo apenas uma ideia principal cada um, ajudam o leitor a respirar e a absorver o conteúdo sem se perder.

5. Abuse de listas e recursos visuais

Sempre que precisar listar documentos, requisitos ou etapas de um processo, use marcadores (bullet points) ou tabelas. O escaneamento visual facilita a compreensão imediata.

Na Prática: O Case do FlashGov e a Inovação em Linguagem Simples

Para entender como essa transformação funciona fora do papel, o FlashGov se tornou uma das principais referências e impulsionadores da Linguagem Simples no ecossistema público brasileiro.

A iniciativa atua conectando servidores, especialistas e órgãos governamentais com o objetivo de descomplicar a comunicação pública por meio do design de serviços e da inovação centrada nas pessoas. Em vez de focar apenas na teoria jurídica ou burocrática, o projeto demonstra na prática que simplificar um texto melhora diretamente a experiência do usuário dos serviços públicos.

O que podemos aprender com o case:

  • Foco no usuário real: Cada formulário, edital ou comunicação digital é pensado a partir das reais necessidades e do nível de compreensão de quem vai utilizar o serviço, e não da rotina interna do órgão.
  • Testes de usabilidade: A clareza de um texto é validada com pessoas reais antes de ser implementada em larga escala, identificando ruídos e termos dúbios que geram retrabalho.
  • Cultura de experimentação: Mostra que pequenos ajustes visuais (como hierarquia de informações, marcadores e remoção de termos arcaicos) causam impactos gigantescos na redução de filas e chamados de suporte.

Iniciativas como essa reforçam que a Linguagem Simples não diminui a precisão técnica das instituições — ela apenas garante que o serviço público cumpra o seu papel de ser acessível a quem mais precisa.

Conclusão: Escrever bem é escrever para todos

Adotar a Linguagem Simples exige uma mudança de cultura. Durante muito tempo, acreditou-se que escrever difícil era sinônimo de autoridade e conhecimento. Hoje, sabemos que a verdadeira eficiência do serviço público está em se fazer entender.

Como bem resumia Albert Einstein: > “Se você não consegue explicar algo de forma simples, então você não entendeu muito bem o que tem a dizer.”

No serviço público do século XXI, a clareza é a maior demonstração de respeito ao cidadão.

📚 Fontes e Referências

  • Agência Senado (2025): Linguagem simples em mensagens de órgãos públicos agora é obrigatória. Lei 15.263/2025.
  • Governo Federal / Imprensa Nacional: Lei nº 15.263, de 14 de novembro de 2025 – Institui a Política Nacional de Linguagem Simples.
  • Portal Sollicita (2025): Governo institui Política Nacional de Linguagem Simples e estabelece diretrizes textuais.
  • CNJ (2023): Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples.

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